Tristeza

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Quando tive o primeiro contato com a FUNDACENTRO (Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho) percebi o quanto existe de produção científica e de regulamentação específica sobre as ações preventivas da atividade laboral. Meu pai, Seu Nunes, me alertou da importância desse órgão, que era vinculado ao extinto Ministério do Trabalho. Me envolvi nesse mundo da segurança a tal ponto que realizei um significativo esforço para tentar trazer para o nosso estado, o Maranhão, um escritório da fundação. Nessa batalha conquistamos o apoio de um importante dirigente daquela casa na época – um maranhense de renome internacional na área de segurança da construção civil, que profere palestras e ministra cursos pelo mundo todo, mas pouco conhecido na nossa terra: o engenheiro e professor Jófilo Moreira Lima.

Seu Nunes ficou eufórico com a ideia, juntamente com todos seus companheiros do sindicato dos técnicos. Professor Jófilo montou uma agenda na qual avançamos bastante, mas as dificuldades superaram nossas forças naquele momento e o escritório do Maranhão não saiu. Creio que hoje está mais difícil, já que o próprio ministério se transformou em secretaria e pouco sabemos se ainda há tal interesse por parte da FUNDACENTRO.

Meu pai, também na condição de professor, por onde andava identificava riscos relacionados ao trabalho ou sinistros em geral. Por várias vezes me mostrava extintores vencidos ou falta de sinalização em algum acesso de restaurantes, empresas ou mesmo nas vias públicas. Aprendi com ele que por mais importante que sejam os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) – botas, luvas, capacetes, etc. – o foco tem que ser na execução de práticas preventivas. Ele sempre me dizia que se em alguma situação for necessário recorrer ao EPI para evitar um acidente é por que a prevenção já falhou.

Foi com esse olhar que acompanhei as notícias sobre o acidente ocorrido no Mix Mateus da Curva do Noventa, que conforme a imprensa, feriu oito pessoas e levou a óbito a colaboradora Elane de Oliveira Rodrigues, 20 anos, após o desabamento de várias e enormes prateleiras. É preciso aguardar a apuração de todos os fatos para definir responsabilidades, mas a existência do acidente em si nos mostra que algo pode ter falhado na prevenção.

Vem crescendo nos últimos anos em várias redes, esse modelo de negócio que mistura atacado e varejo, trazendo para o salão de venda das lojas o estoque, que antigamente ficava em área própria, de pouca circulação de pessoas. Pelo menos dois fatores de risco se mostram presentes nesse modelo, a meu ver: mercadorias alocadas nas alturas, em grande quantidade, peso e volume; e o trânsito de veículos do tipo empilhadeira no meio dos trabalhadores e clientes, um ponto crítico que chega a assustar em algumas ocasiões e que merece debate a sua utilização durante o expediente normal de funcionamento das lojas, momento mais delicado para controlar os riscos, ao que me parece.

A imensa tristeza que vivemos nos dias atuais com a perda de tantas vidas causadas pela pandemia se ampliou com a morte da jovem Elane que partiu na flor da idade, trabalhando até as 20h de uma sexta-feira, buscando findar uma provável semana cansativa, mas que encerrou em definitivo a trajetória de quem queria desde cedo garantir o próprio sustento e ajudar no da sua família. Ficamos imaginando os sonhos, planos e projetos que não mais se realizarão. Tudo que ela poderia ser, mas não vai. Mesmo na condição de pai, o que não dá pra imaginar com precisão é a dor do pai e a dor da mãe.
Nossos sentimentos a toda a família e amigos.

Descanse em paz Elane.

Por Steffano Silva Nunes

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