Pela prescrição de fé

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Recentemente tive a alegria de conferir um dos episódios do programa Ensaios de Memórias – que registra pequenas falas de professores e professoras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – entre elas a do Dr. Adib Jatene, professor emérito, especialista em cirurgia torácica.

Trata-se de um depoimento singular: Dr. Adib Jatene – ao se expressar sobre a prática da Medicina e a relação entre o médico e o paciente (a despeito da lembrança do compromisso inarredável com a ética) – diz que a Medicina não foi feita para o médico, mas para o paciente. E este, em sua fragilidade e vulnerabilidade, devido à sua condição, sente medo.

Em seu conselho, Dr. Jatene diz que o médico é “um simples agente” da profissão e aquele paciente com medo e angustiado deve ser tratado com toda dignidade; ele recordou um professor em sua formação que dizia que o médico deve tratar o paciente como se fosse seu filho, sua mãe, seu pai. Evidente que nem o professor, nem Dr. Jatene pretendiam vulgarizar o relacionamento entre médico e paciente, mas destacar o sentido do respeito e cuidado que certamente daríamos aos nossos próprios entes queridos.

Em certo momento de sua fala, Dr. Jatene afirma que costuma dizer que o oposto do medo é a fé. Ele se referia à atitude do paciente que acredita no tratamento e em sua cura. Portanto, o médico não poderia, em hipótese alguma, aproveitar-se dessa condição de paciente.

Quedei-me pensando sobre esse trecho da fala do Dr. Jatene sobre a fé do paciente. Não como escape, nem como fuga, quase todos os pacientes, espontaneamente, têm sua fé despertada, porque a doença aponta para a finitude sobre a qual raramente pensamos, quando estamos saudáveis. Parte da saúde mental é esta postura de, mesmo nos sabendo mortais, não temos a obsessão de pensar na morte o tempo todo. Aqueles que são considerados mentalmente saudáveis têm este mecanismo porque, estando vivos, querem ser produtivos, realizadores e, para sempre, sonhadores.

Lembrei de uma história contada pelo Dr. Dráuzio Varella, em livro, cujo título, Por um fio, em que ele narra o caso de um maranhense a quem atendeu, homem simples e do campo que, diante da morte iminente, saiu-se com a seguinte frase digna de um filósofo: “quando cavalo está na beira do abismo é que se espanta, doutor”!

Assim é, na doença, essa espécie de abismo, em que o homem é confrontado com sua mortalidade e fatalmente é levado a ver e rever sua história. Sua vida foi útil e realizadora? O que falta fazer? O que gostaria de fazer ainda? Haverá tempo? E a fé é o lenitivo. A fé organiza as impossibilidades. A fé provê a esperança, pois é uma força latente, que emerge, na doença, na hora da provação.

Todo médico deve ter a humildade e a sabedoria, ainda que não comungue a fé do seu paciente, de permitir a expressão da fé como recurso íntimo do paciente. A fé saudável não desacredita dos meios humanos, mas os vê como instrumento para a saúde. Embora Dr. Jatene não se referisse precisamente a isso, comecei a refletir que retirar a esperança daquele que a ela se apega é, como ele disse, aproveitar-se – e de forma cruel – da condição de quem pouco pode fazer por si, além de consolar-se com sua fé e retirar dela o que pode para seu consolo e conforto em seus momentos finais. Incerteza, decepção e aturdimento dos pacientes são muitas das expressões com as quais nós, médicos, e todos os demais profissionais da saúde – muitas vezes nos deparamos.  

Mas, se um homem se faz à medida que caminha, o caminho se faz ao caminhar, como ensina o poeta. Jamais devemos perder a perspectiva do outro. A empatia é parte dos recursos da caminhada. Ao lidar com a fragilidade do corpo, não devemos esquecer da perspectiva imaterial que está para além da compreensão humana. Por isso, é preciso uma necessária dose de fé na receita médica. Não podemos menosprezar a intuição do enfermo, pelo contrário, vivê-la, compartilhando com ele a confiança que Deus passa a nossas mentes e mãos. Ser médico é, antes de tudo, tornar-se paciente, no duplo sentido da expressão.

Natalino Salgado Filho

Médico Nefrologista, Reitor da UFMA, Titular da Academia Nacional de Medicina, Academia de Letras do MA e da Academia Maranhense de Medicina.

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