A alça do caixão

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Por Steffano Silva Nunes

A transmissão ao vivo do presidente Bolsonaro na última quinta-feira, 29 de julho, criou muita expectativa, pois foi anunciada como uma bomba que apresentaria incontestáveis e concretas provas sobre as fraudes realizadas nas urnas eletrônicas brasileiras. Ao final da longa transmissão constatou-se que o presidente não apresentou nada e ainda disse em alto e bom som: não tenho provas…

Ele está buscando desacreditar o processo eleitoral sem ter o mínimo de sustentação. São milhares de profissionais envolvidos no processo. Todos os partidos designam delegados, fiscais e uma enxurrada de advogados para acompanhar as eleições. Todas as denúncias anteriores de fraude não tiveram qualquer comprovação e foram investigadas até pela polícia federal.

Some-se a isso tudo o fato de que o próprio Bolsonaro foi eleito, nesse processo de urna eletrônica, para a presidência e já foi eleito tantas outras vezes para deputado federal. Se não bastasse, conseguiu eleger seus três filhos mais velhos para cargos eletivos em dois estados diferentes da nação, no mesmo processo através das urnas eletrônicas.

Essa história de lançar desconfiança sobre as urnas ou é conversa de mentiroso ou de doido. Mas pode ser as duas coisas. No campo da loucura, ela estaria sendo alimentada por um desespero que tem origem na projeção de que Bolsonaro será derrotado na próxima eleição. Todas as pesquisas já mostram isso, mesmo tendo mais de um ano pela frente.

No mesmo dia em que o Brasil ganhava a sua primeira medalha na ginástica olímpica com Rebeca Andrade e após o brilhante desempeno da fadinha Rayssa Leal obtendo no skate a medalha de prata e do ouro, no surf do Ítalo Ferreira, o discurso do presidente não fez um mínimo comentário para exaltar o desempenho dos nossos atletas que estão a nos representar do outro lado do mundo, talvez por que exatamente esses atletas, de origem humilde e batalhadora, representam um Brasil que não é o de Bolsonaro, o Brasil do povo, que dança e se apresenta ao som de Baile de favela.

Enquanto discursava, a cinemateca pegava fogo e não se ouviu uma só palavra de lamento ou preocupação por parte dele para buscar preservar uma importante parte da nossa história. Não poderia ser diferente, pois a arte e a cultura, nesse governo, só vivem de redução de verbas e abandono. Uma irresponsabilidade total.

Bolsonaro já negligenciou sobre a condução do combate à pandemia. Agora desafia as autoridades constituídas. Lançou várias denúncias e dúvidas sobre o trabalho do TSE, isso merece resposta. Joga pressão sobre os políticos que não querem embarcar nesse devaneio de atacar o processo eleitoral brasileiro. Sim, todo o processo. As urnas são apenas o discurso da vez. Amanhã virão outros. O objetivo é atacar a democracia.

Espero que a tal da “Live” não tenha sido vista pelo resto do mundo. Senti vergonha. É muito difícil explicar para outros países como chegamos até aqui. O único lado bom disso tudo é que ele criou uma referência. É tão ruim que dificilmente conseguiremos repetir ou superar a façanha de encontrar alguém tão inapto e desqualificado para conduzir a nossa nação.

Bolsonaro se isola a cada dia que passa. Mas é preciso manter atenção no debate e esclarecer ainda mais o povo sobre as suas pretensões golpistas. O mesmo Centrão que ele atacou em verso e prosa é agora a sua principal base de sustentação. Já admitiu que é de lá que ele veio. Só falta alguém lembrá-lo que o Centrão não se vende, se aluga. E como o governo está ladeira a baixo, derretendo, acabando e morrendo, é bom lembrar também que o Centrão não segura alça de caixão.

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